A criminalização dos adeptos

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Comecemos pelo óbvio: os adeptos são uma chatice para o futebol moderno. Os adeptos, sublinho. O futebol moderno alimenta-se de espectadores de sofá e de bancada, engorda à conta de bilhetes a preços proibitivos e parece gozar com o associativismo quando disponibiliza camisolas de jogo com um custo miserável a preços de venda exorbitantes. No contexto do futebol moderno, adeptos que lutam pelos seus interesses e direitos – associativos, desde logo, mas também “comerciais” – são um obstáculo ao negócio e à sua rentabilidade. É por isso sem espanto, sem ponta de surpresa, que leio sobre a proposta de lei do governo “contra a violência no desporto”, texto que de acordo com o cavalheiro que exerce transitoriamente a função de “Secretário de Estado da Juventude e Desporto” foi elaborado em “colaborarão com os mais diversos agentes do desporto e com as forças de segurança” [ficando todavia por esclarecer se os adeptos foram consultados e ouvidos, ou se “os mais diversos agentes do desporto” são apenas aqueles que por acção e inacção mais têm contribuído para a escalada de violência que é, de certa forma, a própria argamassa do futebol-negócio]. A proposta do governo, se corresponder ao que vem sendo descrito nos media, é absurda e de constitucionalidade duvidosa. É ineficaz nas acções que propõe e aproxima-se perigosamente de visões e práticas ditatoriais aplicadas ao contexto desportivo. Inverte toda a lógica no combate à violência e ignora aspectos actuais da violência praticada à margem dos chamados “espectáculos desportivos” em países onde a repressão cega não extinguiu de forma alguma a criminalidade associada ao futebol, apenas a transferiu para outros cenários. Creio sinceramente que compete aos adeptos unirem-se em torno de objectivos comuns, como este de derrotar uma lei que os pune mesmo antes da prática de qualquer acto ilegal. Creio igualmente que os clubes, que são antes de mais associações de adeptos, não poderão demitir-se de defender os interesses e a dignidade dos homens e das mulheres que lhes dão corpo. Porque se o fizerem estarão a auto destruir-se. Esta (proposta de) lei não serve, é estúpida, previsivelmente ilegal e insultuosa para quem vai aos recintos desportivos participar activamente nas competições desportivas.

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